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"Filhos, como sabê-los?"

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Estava pensando nas palavras do Papa Francisco em sua primeira audiência do ano e toda a polêmica que suscitou, a torto e a direito, como parece inevitável no mundo atual. Ontem, após assistir ao filme “A filha perdida”, baseado em livro homônimo de Elena Ferrante, me veio um sentimento forte sobre essa questão – ter ou não ter filhos – pela tristeza e reflexão que o filme me causou. Não vou falar sobre a história aqui (procuro me manter minimamente atualizada com a ética e os costumes, e sei que esse negócio de “spoiler” é feio), mas da mensagem. A tristeza e a culpa por não ter sido melhor com aqueles que amamos.

Hoje acredito que se não fosse mãe, ao menos de uma única filha como sou (pouco para o Papa), a vida para mim teria muito menos significado do que tem. Aos 68 anos já não me empolgo com muita coisa, saí das trincheiras profissionais sem nenhum remorso e pouca saudade, não acredito nos políticos (embora reconheça a importância da política), a repetição dos noticiários me entedia, e acho a polarização político-ideológica um porre. Como não sou religiosa, não tenho mitos e nem crenças onde me apoiar. Penso que a religião, qualquer uma, ajuda muito nesta questão de dar algum sentido à vida.

Então volto aos filhos. Ao deitar e ao me levantar todos os dias meu pensamento vai para ela, coisa básica para qualquer mãe. Suas conquistas e vitórias, mesmo as menores, me enchem de alegria. E as tristezas ou fracassos me tiram o sono, desarranjam o intestino, estragam o dia. Poxa, mas qual mãe/pai não sabe disso, né? Mas não são só esses sentimentos atávicos que nos ligam aos filhos. É uma coisa maior como saber que esse é o significado de toda a vida no Universo, a evolução, a continuidade da espécie, a permissão para chegar e no fim partir deixando semeada a Terra e o cosmos. É um sentir transcendente.

E assim refletindo penso que o Papa está meio errado. Primeiro que substituir filhos por pets, não tem nada a ver. Pode-se muito bem ter os dois, ou somente um, ou nenhum, mas são sentimentos muito diferentes. Acredito ainda que não é egoísta quem não quer ter ou adotar filhos (direito de cada qual), mas sim quem os têm, ainda que na juventude não saiba disso. Tem muita sorte quem cedo percebe esse sentimento que mantém o cordão umbilical como nossa via de conexão com o cosmos. Quando chegamos, como ponte, e quando partimos, como semente.

E no que tudo isso se relaciona com o filme “A filha perdida”? Quem já viu deve entender, quem não viu, vale a pena ver.

O poetinha traduziu com a beleza da síntese esse sentimento que aqui tentei expor.

"Filhos, filhos?

Melhor não tê-los!

Mas se não os temos

Como sabê-los?"

(do Poema Enjoadinho, Vinícius de Morais)

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